Testemunho - Patrícia Soares
Olá pessoas 😊 saudades de testemunhos ? Saudades de ler um bom testemunho? Testemunhos que nos fazem ficar colados à cadeira, aqueles que nos dão sensação de murros no estomago?
Patrícia uma mulher como tantas outras . . . passou pela anorexia, conviveu partilhou dias semanas, meses, anos com esse demônio . . . um dia decidiu expulsa-lo da vida dela para sempre e hoje conta-nos como foi o caminho que percorreu . . .
Estão prontos? Prontos ou não aqui vai . . .
"Patrícia Soares, 36 anos
@girl.on.a.healthy.journey
Sofri de anorexia e já tive vergonha por isso... Já não tenho, mas também não me orgulho minimamente. Simplesmente fiz as pazes com o passado e passei a aceitar-me com todos os meus defeitos e com todas as minhas falhas. A autocomiseração não nos leva a lado nenhum. Por estar doente estive muito triste e por estar muito triste continuei doente... [a anorexia não nos leva só os kilos, leva-nos também os sorrisos e a força de viver. O peso que sai de nós passa a pesar mil toneladas em cima dos ombros...] Felizmente o - meu - amor - por mim - prevaleceu!
A Catarina pediu-me que partilhasse o meu testemunho para a Papinha do Bem e eu aceitei prontamente.
Sou uma sobrevivente de um distúrbio alimentar muito comum nos dias de hoje (infelizmente) e acredito que é importante partilhar a minha história, especialmente com quem está a passar por um distúrbio alimentar ou em processo de recuperação. É possível vencer esse bicho feio e mau. Eu sei que é possível.
Um dia olhei para as minhas pernas e pensei "que coxas gordas, que horror, como é possível? tenho que mudar isto!".
Estávamos em 1994, eu tinha 14 anos, pesava 54 kg e naquele dia decidi que precisava emagrecer.
No início foi simples. Substituí o pão por iogurtes e maçãs. Comia menos arroz, massa, batatas. Os doces foram banidos. Mas, à medida que o peso foi descendo, os meus pais foram ficando mais atentos à minha dieta. Diziam-me para comer mais, eu dizia que não e havia discussão. Começaram a obrigar-me a comer coisas que eu não queria e eu chorava porque achava que ia ficar gorda. Então criei um plano - só comer se tivesse mesmo de ser. Ter fome não me incomodava, eu conseguia estar muito tempo sem comer. Se ninguém visse não comia. Até que comer o muito pouco que comia se tornou um pesadelo. E vivi meses infernais com muitas horas sem comer, compulsões, vómitos induzidos, lágrimas, vergonha, arrependimento.
Com 42 kg nunca me achei magra demais. E estava, é claro que estava! Aos 16 anos a minha mãe disse "minha filha eu vou ajudar-te". Não houve terapia. Tomei alguns ansiolíticos e voltei a ser uma rapariga normal. O peso subiu, mas o bichinho da anorexia nunca se foi embora. Passei vários anos em desequilíbrio. Houve tempos em que só bebia leite. Houve tempos em que comia de tudo. Houve tempos em que praticamente não comia ou se comia era logo um episódio de compulsão. Escrevi mil 'cartas' a mim mesma, com promessas de cura. Rasgava-as sempre que falhava e escrevia outra - aquela seria a última. Até que foi. Estou recuperada há cerca de 10 anos.
Ainda me peso todos os dias, mas agora estou feliz no meu corpo. Continuo a ter medo de engordar e sempre que ganho 1 kg que seja corrijo exageros ou ajusto o exercício, mas agora não me permito a soluções extremas - como jejuar - porque morro de medo de voltar a cair nas garras desse monstro.
PORQUÊ
A autoestima não é uma coisa que tenha surgido naturalmente em mim. Nem sempre tive uma avaliação positiva de mim própria. Dizem que a autoestima se forma na infância. Eu costumo achar que tive uma infância muito feliz, mas se calhar não foi assim tão perfeita. Em casa nunca me faltou amor, carinho, comida na mesa ou roupa para vestir. Fui uma criança perfeitamente normal. Sempre fui boa aluna, mas nunca fui a melhor. Era um pouco mais gordinha que as outras crianças da minha idade, mas nunca fui obesa. O presidente da república na altura era o Mário Soares e porque não havia mais crianças com o último nome Soares lá na escola eu era a Marocas, a Bochechas, a Bucha-Estica… na altura não existia bullying, ou melhor, existia, mas não se falava nele e também não se fazia nada para o parar. Então eu fui essas coisas feias todas até os meus ‘amigos’ (e eu) crescerem. Podia dizer que isso não me afetou, mas estaria a mentir, é claro. Passei uma grande parte da minha vida aprisionada num distúrbio alimentar. Um dia achei-me gorda e nunca mais me achei magra demais. Estou curada há cerca de 10 anos e foi também há cerca de 10 anos que comecei a trabalhar no maior projeto da minha vida: EU. Aos 18 anos não fui para a Universidade. Mas fui aos 28. Um ano antes voltei à escola, fiz todos os exames e entrei. Foi um dia muito feliz. 3 anos depois tinha o canudo na mãos para mostrar – a mim mesma - que eu era capaz. Aos 33 anos, com 46 kg, deixei de fumar e comecei a minha jornada saudável. Hoje sou uma rapariga feliz. Fiz muitas escolhas infelizes no passado. Estive doente. Mas já não tenho vergonha e nem culpo ninguém. Tenho orgulho por me ter levantado. Sou uma lutadora, não uma vítima. Já não desejo mais aquela magreza doentia. Já não me sinto inferior a ninguém. Gosto de mim. Gosto daquilo que faço para continuar a gostar de mim. E agora só tenho que retribuir esse amor ao universo (que são todos vocês). Agradecendo todos os dias este milagre e esta bênção que é viver!
A MINHA JORNADA SAUDÁVEL
2014 foi o ano em que a minha vida começou a mudar - comecei a tornar-me mais saudável. 7 anos depois de estar curada da anorexia deixei de fumar e essa talvez tenha sido a mudança mais importante. Não foi fácil. Foi complicado, mas foi uma das melhores coisas que já fiz por mim. Depois disso mudou tudo. Passei a tomar um pequeno-almoço decente (em vez de um simples copo de leite) e passei lanchar (coisa que antes não fazia porque só pensava no café e no cigarro - dizem que quem tem vício não tem fome). Fazia 3 refeições por dia e pesava 46,5kg - para a minha altura -160 cm - e a minha idade na altura - 33 - era pouco. Ganhei uns quilos, não porque comesse demais, mas simplesmente porque passei a comer e isso assustou-me (porque o bichinho da anorexia nunca nos abandona). No verão de 2014 pesava 52,5 kg. Foi nessa altura que decidi (em conjunto com o marido) fazer alguns ajustes na alimentação: cortar hidratos, reduzir gorduras... O que normalmente se faz para perder peso. Passou a haver muito mais legumes e fruta e muito menos massas e farinhas (pizza e hambúrgueres incluídos). Mas não emagreci nada que se visse. Suponho que isso seja porque já estava no meu peso ideal. Determinada a viver uma vida melhor e a ser saudável, forte e fit no verão de 2015 inscrevi-me (juntamente com o marido mais uma vez) no ginásio. Acordo às 6:00 da manhã de segunda a sexta para treinar antes de ir trabalhar, porque saio tarde e no fim do dia não ia conseguir deixar o meu pequeno (que já tem quase 3 anos, mas eu ainda acho que é bebé) à minha espera. Agora peso 50 kg. Sinto-me em forma. Sinto-me bem comigo. No início custou muito fazer estas mudanças. Ai se não custou. Agora o que custa é viver sem tudo isto. Não me tirem as panquecas, os waffles, as papinhas de aveia, nem os frutos vermelhos, nem as sementinhas e muito menos o ginásio. E voltar a fumar? Não, não quero, obrigada.
O QUE APRENDI
[Eu sou mais magra que… Ou mais gorda que… Ou mais bonita que... Ou mais feia que... Ou mais ou menos… ]
Passamos a vida a compararmo-nos com alguém, mas o que precisamos mesmo é de viver ser sem mais e sem menos, porque nós somos únicos, versões limitadas e inimitáveis, e só quando paramos de nos comparar com os outros é que podemos ser verdadeiramente felizes na nossa pele. Temos de encontrar a nossa própria beleza, temos de aprender a amarmo-nos. Parece simples, mas nem sempre é. É frequente achar-se que gostaremos mais de nós próprios se formos mais magros, ou com mais curvas, ou com mais massa muscular, ou loiros, ou morenos, ou maquilhados... Mas isso é uma ilusão. Não vamos passar a gostar mais de nós por mudarmos o nosso aspeto exterior. Antes disso temos que aprender a gostar do nosso interior. O verdadeiro processo de mudança acontece quando aceitamos quem somos, com todos os nossos defeitos e qualidades e começamos a trabalhar na nossa melhor versão. E a nossa melhor versão não tem que ser magra, nem gorda, nem musculada. A nossa melhor versão é aquela que é saudável e nos deixa felizes, porque inclui hábitos que respeitam o templo que é o nosso corpo e deixa-nos a mente tranquila.
A nossa melhor versão somos nós a sermos felizes por sermos quem somos na nossa própria pele, bonitos por dentro e por fora.
❤"








3 comentários
Catarina, muito obrigada por me teres dado a oportunidade de partilhar a minha história. Se este testemunho ajudar uma única pessoa que seja, então a minha missão estará cumprida 🙏💙
ResponderEliminarPais estejam atentos ao comportamento dos vossos filhos. Os distúrbios alimentares são problemas psicológicos, mas há muitos alertas exteriores que podem permitir que a doença não chegue a um estado avançado se agirmos.
Meninas e meninos (miúdos e graúdos) tenham cuidado com as dietas. É tão fácil cair... E tão difícil levantar...
Muitos parabéns Patrícia! Um excelente testemunho de força e determinação!
ResponderEliminarandreia_azores
Obrigada nós pela partilha! E sim acreditamos que as tuas palavras vão ajudar as pessoas que estão neste momento a travar batalhas com esse demónio e também ajudar alertar as famílias! Estar alerta é preciso !!! Obrigada ❤
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